Claudia Carla no País da Internet

Djhuliana Mundel e Antônio Rodrigues de Lemos Augusto

A internet tem um sistema randômico pra escolher qual será o computador que ela vai boicotar a cada dia. Esta semana já fui “contemplada” duas vezes em computadores diferentes. Não me pergunte como descobri a existência dessa máfia. Só sei que, a partir daí, minha vida mudou e sinto-me vigiada a cada momento que me conecto com o mundo virtual. Em certos momentos, chego a pensar que, de repente, sou eu que carrego algum vírus no corpo que faz a internet cair assim que me aproximo do computador. E é esse medo que me faz, agora, esperar a consulta do psiquiatra pra fazer uma regressão: há algo no meu passado que não se encaixa e que me torna alvo digital.Pensando bem, será que eu deveria estar num consultório de um psiquiatra? Será que não seria melhor eu procurar um curso de computação? Foi quando, da tela do meu notebook, colocado sobre minhas pernas na sala de espera, pulou um animal de três centímetros de altura e quatro centímetros de largura, gordo, musculoso e feio, muito feio. Ele disse: “O problema pode ser no seu navegador”.

E, um segundo após, mergulhou no computador da secretária do consultório, ao mesmo tempo em que soltava uma risada jocosa. Fiquei parada ali, sem saber se tinha sido um lampejo da minha consciência ou se já estava num nivel tão avançado de loucura que delirava. Mas pelo menos soube que tinha procurado o lugar certo. Foi quando fui convidada a entrar na sala do psiquiatra:

— Senhorita Cláudia Carla, por aqui, por favor.

Desliguei o notebook, guardei-o na bolsa e fui caminhando ao encontro do divã. Enquanto caminhava, fiquei pensando em como contar os últimos acontecimentos ao psiquiatra de forma que ele não me achasse louca a ponto de ser internada imediatamente. Não podia ficar num hospital psiquiátrico sem antes me certificar de que poderia levar meu notebook e saber se o local possuía internet wireless.

Cheguei à sala, e o médico ainda não se encontrava. A secretária me disse que logo ele entraria: fora apenas comprar cigarros no bar da esquina, mas que eu poderia ir me acomodando no divã e relaxando. Foi quando olhei para o nome do médico, na plaquinha sobre a mesa: Steve Bill Jobs Gates da Silva… Entrei em pânico. Quando dei por mim, já estava a três quarteirões de distância, correndo feito uma louca, que talvez eu fosse mesmo.

Na rua, correndo sem saber exatamente por que ou pra onde, parei pra resolver qual seria meu próximo passo. Foi então que a solução praticamente se materializou na minha frente. É claro! Como não pensei nisso antes! Bastava eu me beliscar, afinal, toda essa loucura só podia ser um pesadelo: tasquei um beliscão bem doído em mim mesma, mas… o único resultado foi uma puta dor e a constatação de que não era um pesadelo e, muito menos, um sonho.

O jeito era apelar para a ciência. Mas tinha que ser em um local seguro. Parei pra respirar e procurei a lan house mais próxima. Lá, pelo menos, se a internet caísse, teria um técnico de plantão pra restabelecer a conexão. Achei a lan house, solicitei um computador e comecei a digitar os meus sintomas no Google pra descobrir qual era meu problema. Eis que o “fantástico mundo Google” me deu o seguinte resultado: um link apenas, que me mandava encostar o dedo na tela. Achei aquilo estranho, mas – loucura a mais ou a menos – não custava nada obedecer. Escolhi meu mindinho como vítima e, com ele, toquei a tela para, zapt!, ser puxada pra dentro da Rede Mundial de Computadores, em um formato míni de mim mesma.

Quando me vi naquela miniversão de mim mesma, percebi que estava tendo um déjà vu. Era óbvio! Eu só podia estar sonhando! Pior ainda: meu sonho era uma versão tecnológica de Alice no País das Maravilhas! Como eu já sabia exatamente o final do livro, resolvi explorar aquele sonho maluco. Escorei na barra de rolagem da tela e aguardei a aparição do coelho branco. Mas, como meu sonho era muito original, ao invés do coelho, quem apareceu foi Bill Gates, também em versão miniatura. Ele olhou pra mim e fez sinal pra que eu o seguisse.

Retendo, a duras penas, a tentação de pedir um autógrafo, fui caminhando virtualmente por sites de todos os tipos, logo atrás do gênio em formato pigmeu. Eu não entendia o que ele falava, pois faltei às aulas de inglês do ensino médio. Mas logo Bill Gates clicou em um botão e o software de tradução simultânea passou a funcionar. Ele me dizia que estava estupefato comigo: como eu, uma simples brasileira interiorana da região central do país, tinha conseguido descobrir o sistema randômico de boicote que ele, gênio inquestionável, demorou séculos pra inventar. Opa, pensei, algo está errado. Como assim “séculos”? E aonde ele estava me levando?

Tive que puxar lá do fundo da memória detalhes do livro que melhor explicava tudo aquilo, a razão do meu déjà vu. Nossa, já tinha mais de dez anos que eu havia lido Alice no País das Maravilhas! A partir desse momento, decidi que – de tempos em tempos – releria todos os livros. Nunca se sabe quando você precisará recordar detalhes de alguns deles para conseguir acordar da Rede Mundial de Computadores ou do que quer que fosse. Como a memória falhou, resolvi fazer o óbvio: seguir o coelho! Quero dizer, o mestre!

Chegamos a um endereço digital. Gates bateu na porta e alguém abriu: “O Chapeleiro Maluco!!!!”, exclamei, extasiada, ao ver quem era o porteiro. “Não! Eu sou o criador dele! Prazer, Lewis Carroll!!!”. Não acreditei e fui entrando. Uma multidão estava lá dentro, conversando animadamente. No alto, em um balão… só podia ser Julio Verne. Em um canto, percebi Conan Doyle e Agatha Christie apartando uma discussão entre Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Walt Disney explicava pra Maurício de Souza a ideia de colocar um cachorro como bicho de estimação de um rato. E de este rato ter, como melhor amigo, outro cachorro. No meio da sala, Hemingway trocava sugestões de estilo com Sidney Sheldon. Calvin corria atrás da Emília, enquanto Obelix e Hagar disputavam uma queda de braço. E muito mais gente estava lá, gente que eu não conhecia. O que todos estão fazendo aqui? Bill Gates respondeu: “São escritores e personagens que estão simplesmente lhe esperando”.

Observando aquela cena, com a minha certeza de que aquilo tudo era um sonho começando a estremecer, fiquei imaginando que substância alucinógena poderiam ter colocado no meu café da manhã. Mas, como quem está no sonho é pra sonhar – eita trocadilho cretino! –, continuei naquela mistura de mortos-vivos. Foi então que Gates começou a me explicar o que acontecia com a internet toda vez que eu tentava usá-la: “Simples, minha querida Cláudia Carla! Dessas centenas de seres nesta sala, todos escritores ou personagens deles, quantos você conhece?”.

Comecei a contar: um ali, dois acolá, três mais adiante… Aquele ali deve ser o Snoopy pulando sobre o Garfield… Hummm, Harry Potter na vassoura ali em cima vai bater no balão do Julio Verne. Machado de Assis deve ser aquele senhor em prosa com Dona Benta… Mas tem muita gente de que não faço ideia…

“Pois é”, disse Gates. “Por isso criamos um tempo que não está no tempo, uma forma de boicotarmos a internet daqueles que a usam só pra bobagens. A internet é uma ferramenta fantástica, mas não pode ser um instrumento emburrecedor – mil perdões, Burro Falante!!! – do cidadão. Assim, se seu PC deu piti, vá ler um livro que logo, logo nosso boicote lhe abre outra chance de navegar.”

Pedi pra fazer só mais uma pergunta: “E por que você disse que essa turma toda de escritores e personagens, nesta sala, está somente me esperando?”.

Aí Bill Gates riu, estalou os dedos e eu entrei em um voo de pó de pirlimpimpim pra cair dentro de um bom sebo de livros usados, a tempo ainda de ouvir uma voz que ia sumindo: “Boooobaaaa… É aí que eles estão lhe esperandoooo”.

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